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Identificação de Helicobacter Pylori na Saliva e Biofilme Dental

 

International Journal of Dentistry, Recife, 3(2): 349-352 Jul / Dez 2004

Sérgio Adriane Bezerra de Moura, Marleny Gerbi, Ana Míryam Costa de Medeiros, Maíra Fanha Souto, Gustavo Barbalho Guedes Emiliano e Jacira Maria Andrade de Sousa

O Helicobacter pylori é uma bactéria gram-negativa, microaerófila, móvel, que vive na mucosa gástrica na superfície de células epiteliais. A infecção do estômago por este microorganismo causa a inflamação da mucosa gástrica que pode conduzir à gastrite, úlcera duodenal ou gástrica e em casos raros ao carcinoma ou ao linfoma gástrico (MALT).

Resumo

Aproximadamente a metade da população mundial é infectada com H pylori mas a transmissão e a fonte desta infecção ainda não são claras. A maioria de infecções é adquirida provavelmente na infância, e especula-se que o biofilme dental possa abrigar o H pylori e, conseqüentemente, ser uma fonte da infecção gástrica. Uma rota de transmissão oral-oral da infecção do H pylori foi postulada e é suportada pela observação de que o H pylori está presente na saliva e no biofilme dental. Embora possa ser transmitida através da boca, é desconhecida se esta age como um reservatório permanente para a bactéria. Diversos métodos para detectar o H pylori são usados no presente. A maioria destes testes de diagnóstico é executada em amostras de biópsias gástricas e a bactéria pode ser identificada nestes espécimes por um teste de hidrólise da urease, métodos de coloração e cultura. Uma vez que os métodos invasivos são caros, os métodos não invasivos tais como o exame sorológico do sangue e do teste da respiração da uréia estão se tornando mais popular. O método PCR provou ser altamente sensível e específico e é considerado como o método da escolha para detectar o DNA do H pylori na boca.

Introdução

A infecção por Helicobacter pylori é a mais comum doença infecciosa crônica gástrica em humanos provocada por bactérias e é a principal causa de gastrite crônica, úlcera péptica, carcinoma e linfoma gástricos, bem como, possíveis manifestações extraintestinais 2,13,14.

Os estudos epidemiológicos relacionados a esse tipo de infecção sugerem a disseminação oro fecal como importante meio de transmissão4 e a prevalência varia entre 25 e 90% aumentando com a idade13 (Megraud). Há evidências de que grande parte da população adquire a infecção por H pylori durante a infância, dessa forma, os estudos que envolvem crianças são importantes na determinação da epidemiologia desse tipo de infecção e são relevantes para o estudo da história natural da doença12.

Há muitos métodos úteis para o diagnóstico de infecção por H pylori, alguns deles se utilizam da endoscopia gastrointestinal superior como meio de obtenção de material para exame, no entanto, outros métodos não invasivos podem ser utilizados para esse fim, utilizando-se para isso de matérias como a saliva e o biofilme dental2,5,17.

O mecanismo de ação do H pylori é dado pelos fatores de virulência que facilitam a sua penetração na mucosa gástrica uma vez que apresenta forma espiralada, presença de flagelos e pela atividade da enzima urease. Além disso, há uma atuação dos produtos dos genes vacA (vacuolating toxin A), cagA (cytotoxin-associated gene A) e iceA (induced by contact with epithelium)1. O gene cagA faz parte de uma ilha de patogenicidade (PAIcag), estrutura genética que contém múltiplos genes relacionados à virulência e patogenicidade de cepas de H pylori. O outro fator é a citotoxina vacuolizante (vacA), responsável pela criação de vacúolos nas células epiteliais e apresenta variabilidade que confere maior ou menor patogenicidade à bactéria6,15. A forma de transmissão do H pylori não está clara e são reportadas as vias oral-oral e oral-fecal como as mais importantes. Uma das evidências que confirmam este tipo de transmissão é a detecção da bactéria na saliva, biofilme dental e fezes16. O diagnóstico da infecção por H pylori pode ser feito por meio de cultivos microbiológicos, análises histopatológicas, teste de respiração, teste da uréase, testes sorológicos e através de tecnologias moleculares utilizando DNA e RNA4,7,8 (. Atualmente o diagnóstico definitivo da infecção por H pylori tem se baseado no isolamento da bactéria em cultivos microbiológicos ou na detecção do microorganismo em preparações histológicas, ambos os métodos provenientes de amostras de biópsias gástricas obtidas nos processos invasivos como a endoscopia. Métodos não invasivos também podem ser utilizados para o diagnóstico da infecção por H pylori, através de exames sorológicos que se baseiam na detecção de um anticorpo específico (anti-H pylori) como resultado de uma resposta imune onde surgem anticorpos IgG no soro no indivíduo15. O surgimento dos testes moleculares permitiu se detectar H pylori em amostras que não são obtidas por meio de biópsias gástricas, dessa forma, pode-se determinar essa bactéria na saliva, no biofilme dental, nas secreções gástricas, nas fezes, possibilitando o diagnóstico clínico e o entendimento dos mecanismos de transmissão9.

A reação em cadeia da polimerase (PCR), uma ferramenta biotecnológica útil no diagnóstico de bactérias e vírus de difícil cultivo in vitro, tem a finalidade de amplificar ou reproduzir in vitro um número de cópias de uma região específica do DNA com a finalidade de reproduzir quantidade suficiente de um fragmento para sua avaliação. A técnica de PCR que apresenta graus elevados de especificidade e sensibilidade tem sido útil no estudo de microorganismos de difícil cultivo como é o caso da H pylori, um bacilo espiralado Gram negativo, móvel e que requer condições microaeróbias a 37º C e pH fisiológico para ser cultivado19.

O biofilme dental tem sido sugerido como um reservatório para H pylori, porém a hipótese de que este pode ser um nicho permanente para a bactéria é muito controversa. Berroterán et al3 (2002) realizaram um estudo com os objetivos de detectar a presença de H pylori no biofilme dental de um grupo de indivíduos utilizando a reação em cadeia da polimerase (PCR) e investigar a relação existente entre a infecção por este microorganismo e alguns índices orais. O grupo experimental desse estudo foi composto por 32 indivíduos com indicação para exame endoscópico e o grupo controle formado por 20 indivíduos assintomáticos. O biofilme supra-gengival foi analisado usando a PCR para o gene da urease. O H pylori foi identificado em 12 (37,5%) dos indivíduos, sete dos quais apresentava gastrite crônica. No grupo controle, três indivíduos foram positivos para PCR. Este estudo não demonstrou correlação de H pylori com higiene bucal, cárie dentária, doença periodontal ou uso de dentadura e concluiu-se que a boca pode ser um reservatório para H pylori e que as secreções orais são vias importantes de transmissão. O uso da saliva como meio para diagnóstico da infecção por H pylori parece ser uma possibilidade atrativa para estudos epidemiológicos da infecção em crianças quando se considera a natureza não invasiva do exame.

A resposta específica do anticorpo para H pylori pode ser detectada usando uma variedade de métodos, mas ELISA (enzyme linked immunosorbent assay) e immunobloting (western blotting) específico para IgG são os mais confiáveis2.

O immunoblotting é um método sensível e qualitativo para determinação da presença de anticorpos. É vantagem ser usado por ser hábil na detecção de anticorpos para cagA e vacA, proteínas que são marcadoras da virulência do H pylori. O uso do westen blotting na saliva é útil no diagnóstico de infecção por H pylori e apresenta resultados com confiabilidade superior àquela proporcionada pelo ELISA2.

Luzza et al10 (1997) estudaram a infecção por H pylori em crianças, através do método ELISA, onde os níveis salivares de imunoglubulina G (IgG) e imunoglobulina A (IgA) específicas para H pylori foram comparados com exame histopatológico (coloração Giemsa) e teste bioquímico (urease) obtidos em espécimes de biópsias gástricas. Também foram avaliados os níveis de IgG no soro. Os resultados mostraram que a sensibilidade e especificidade do teste de IgG salivar foram de 93 e 82% respectivamente. Dessa forma, o teste salivar para IgG pode ser considerado útil para estudo de infecção por H pylori em crianças.

Discussão

A ligação entre H pylori e um número significativo de doenças gastrointestinais constituiu fator importante para que se desenvolvessem métodos eficazes para detectar a presença de infecções. O exame considerado eficaz nesse processo de diagnóstico se baseia no exame histopatológico da mucosa e isso requer a realização de procedimentos de endoscopia, onde, particularmente em crianças se faz necessário o uso de sedação e até mesmo anestesia geral para a obtenção de biópsias gástricas4,12,14,17.

O uso de sangue ou saliva para detecção de imunoglobulina G (IgG) para H pylori como indicador de infecção anterior ou atual tem sido usado de forma que procedimentos não invasivos são usados em substituição àqueles invasivos2,6,7,15.

O diagnóstico da infecção por H pylori por meio da reação em cadeia da polimerase (PCR) demonstra uma sensibilidade e especificidade de 95% e a principal vantagem é que pode detectar o microorganismo sem a necessidade da viabilidade da bactéria nas amostras11. A especificidade da técnica é dada pelo uso de oligonucleotídios sintéticos, específicos para determinado gen e que facilita a amplificação de uma seqüência nucleotídica que porsua vez é específica para H pylori15.

O uso de PCR é útil no diagnóstico do H pylori na boca através da saliva ou biofilme dental. A identificação desse microorganismo na boca não poderia ser feita por meio do método da urease uma vez na microbiota bucal há outras bactérias produtoras dessa enzima. A identificação do H pylori na boca sugere a importância na reinfecção gástrica inclusive após terapêutica com antibióticos. Além disso, é importante a identificação no microorganismo na boca para que sejam feitas recomendações no sentido de se prevenir transmissão via oral-oral15(premoli).

O método western blotting apresenta uma especificidade maior que o ELISA na detecção de anticorpos para H pylori na saliva de crianças e é comparável com o teste ELISA que utiliza soro. O uso da saliva pode apresentar algumas desvantagens quando comparado com o soro; a quantidade de partículas contaminantes presentes na saliva requer procedimento de centrifugação prévia. Outros inconvenientes que podem comprometer a sensibilidade do teste western blotting na saliva são as condições de coleta, onde preferencialmente se deve optar pelo método não estimulado e a ação do congelamento e descongelamento da amostra em casos onde o teste não é realizado imediatamente após a coleta2.

Com os avanços na microbiologia, imunologia e bioquímica, os testes envolvendo saliva como material biológico útil no diagnóstico têm avançado e proporcionado um maior espectro de possibilidades de utilização desse material2,10,16,17. Dessa forma, métodos invasivos de exames são substituídos por meios não invasivos, facilitando sobremaneira o processo de diagnóstico e reduzindo os inconvenientes principalmente quando se considera a aplicação na
população pediátrica10. Aliado a isso, o avanço nos métodos de biologia molecular têm facilitado a identificação de micoorganismos de difícil cultivo in vitro1,2,3,4,6,18.

Referências

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8 - Lu J, Perno C, Shyu R, Chen C. Comparison of five PCR methods for detection of Helicobacter pylori DNA in gastric tissues. J Clin Microbiol, 1999; 37:772-774.

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